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  • Foto do escritorJordino

Pacto Capilar

Atualizado: 5 de out. de 2023



Na oitava série fiz um pacto com o Reginaldo. A gente não cortaria o cabelo até o final daquele ano. Essa ideia já nos acompanhava de há muito, mas foi só no fim do fundamental que resolvemos levar o plano adiante. E por quê?


Sei lá. Mas desconfio que tenha sido apenas por ter algo com o que se comprometer naquele início de adolescência conturbado. Era o que fazíamos. Não éramos roqueiros e nem tínhamos vínculos com o metal (musicalmente falando), tão pouco nossos ídolos esbanjavam belas cabeleiras. Não havia referências.


No dia a dia da escola, quando o pacto era lembrado, esticávamos a franja na testa para mostrar um ao outro que o cabelo crescera mais do que na última conferência. A certeza era uma só, na formatura nossos cabelos fariam inveja ao público feminino. Hoje sei que isso jamais se confirmaria, pois nessa época eu desconhecia o uso de shampoo ou condicionador. Meu cabelo era adepto do sabonete.


Porém, sendo a inconstância uma constante em minha vida desde a aurora da infância, quebrei o tal pacto covardemente numa tarde de terrível calor. Não foi pequena a decepção do Reginaldo quando, antes mesmo de cruzar os portões do Ana Molina Garcia, me viu chegando com o “cabelin na régua”. Este ato de traição com aquele movimento capilar me levou à corte marcial da amizade, custando-me a indiferença do amigo por alguns dias.


Sempre preferi o corte social, aquele básico que não dá trabalho para barbeiro nenhum. Também sempre ouvi que meu cabelo era volumoso demais para deixá-lo crescer e isso era motivo de receio para mim. Mas quando chegou a pandemia e o coronavírus colocou todo mundo do portão para dentro, tomei posse da desculpa perfeita e não dei mais o ar da graça na barbearia.


Dessa vez fui bastante convicto na decisão e não deixei que nada me tirasse o foco, nem mesmo os apelos enamorados de minha namorada. Por um período considerável, com shampoo e condicionador, mantive as madeixas onduladas. Porém chegou um dia em que, de frente ao espelho, achei viável retomar os anos de cabelo curto. Não esperei nem o final de semana, deixei a marmita na geladeira e aproveitei um horário de almoço para renovar o visual.


O barbeiro, surpreso, não acreditou que eu estava prestes a me desfazer de tanto cabelo e, por mais de uma vez, certificou-se de que minha decisão seria aquela. Mais convicto do que nunca, respondi que sim. E enquanto os fios escureciam o chão da barbearia, eu dizia mentalmente: “Minha dívida está paga, Reginaldo”.

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