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O meu nariz é uma senhora

há 2 dias
2 min de leitura
 Desde que assisti a esta cena, costumo utilizar a mesma expressão para designar uma espécie de fraqueza em mim. Com uma pequena adaptação. “Meu nariz é uma senhora”.

“O meu tornozelo é uma velhinha”, disse o sargento Hill enquanto mancava pelas vielas de Neuville se protegendo do fogo alemão, em uma cena memorável do filme “O Resgate do Soldado Ryan”. Desde que assisti a esta cena, costumo utilizar a mesma expressão para designar uma espécie de fraqueza em mim. Com uma pequena adaptação. “Meu nariz é uma senhora”. 


De longe, o meu nariz é o meu “calcanhar de Aquiles”. Isso significa que, fosse eu no lugar de Aquiles, a expressão para designar o ponto fraco e a vulnerabilidade de algo ou alguém seria diferente. “O nariz de Jordino”. Na mitologia grega, Aquiles era todo todo devido ao banho que sua mãe, Tétis, lhe deu nas águas mágicas do rio Estige. A mulher mergulhou o piazinho na água, mas como o segurou pelo calcanhar, esta parte não foi agraciada com a invulnerabilidade. Resultado, anos mais tarde o rapaz foi atingido por uma flecha mortal justamente neste ponto desprovido de graça. Estas informações são apenas para localizar o leitor. Agora voltemos ao assunto central desta crônica, o meu nariz.


Pois bem, o meu nariz é de uma sensibilidade envolvente. Incomoda-se até pelo toque mais leve, isso devido às terminações nervosas da face, que frequentemente estão mais reativas ou irritadas. Espirros e coceiras são bem comuns. Apesar das suas funções serem vitais, entre as partes do corpo humano, o nariz não ocupa o protagonismo na vida comum da maioria. O problema é ser notado só quando está mal. E, como no meu caso isto é frequente, aqui ele é a estrela.


O nariz também se tornou um problema na novela curta do russo Nicolai Gogol, autor de “O nariz”. Só que, neste caso, o problema não foi de ordem biológica, mas social. Na história, Kovalev é um funcionário público que gosta de ostentar sua posição social. Certo dia ele percebe que está sem o nariz. Aquilo que fazia parte de seu corpo e identidade ganhou vida e uma existência independente. Kovalev tromba com seu cheirador andando pela cidade vestido com uniforme que, socialmente, indica uma posição hierárquica superior à do seu próprio dono. O nariz passa a ser mais importante. A história é hilária. E não é preciso nenhuma explicação para este fato, porque Gogol usa deste absurdo para tratar de temas muito mais complexos como identidade, vaidade, status, aparência, hierarquia, reconhecimento social, medo de ser ninguém e outras cositas mais. 


Apesar do meu nariz ser uma senhora, é bom contar com ele para inspirar e filtrar o ar e sentir o perfume do que é agradável nesta vida. Na pandemia, quando contraí o Corona, foi bem triste ficar sem o olfato. Os problemas parecem sempre chamar mais à atenção. Que seja diferente conosco. Que saibamos valorizar aquilo que funciona corretamente em nosso dia a dia, que está na ordem natural das coisas. 


 
 
 

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