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  • Foto do escritorJordino

Nos cascos da tartaruga ou nas poltronas da Varig, Urashima chega ao fim


Urashima Taro, Varig

Um dia o jovem pescador Urashima Taro salvou uma tartaruga das agressões de uma molecada, devolvendo-a ao mar. No dia seguinte, o animal apareceu para oferecer ao seu herói uma viagem pelas profundezas do mar como recompensa pelo seu ato. O destino era o Palácio do Rei Dragão, uma espécie de Atlântida. Urashima aceitou.


Já no local, a tartaruga se revelou como uma linda moça, princesa da bagaça toda. Ao pescador foi oferecido uma estadia por quanto tempo desejasse, regada a toda mordomia possível. Mas parece que ele ficou só por uns três dias, pois sentiu saudade de casa e resolveu voltar. Porém, não foi embora sem uma lembrancinha. A princesa deu ao jovem uma caixa misteriosa, advertindo-o para que nunca a abrisse.


Ao retornar para sua aldeia tudo estava transformado. Urashima descobriu que trezentos anos haviam se passado desde sua viagem. Desolado, ele resolveu abrir seu presente. Da caixa saiu apenas uma fumaça branca que o envolveu transformando-o em um velho à beira da cova. Por contrariar o que a princesa havia dito, o rapaz perdeu o que ganhara em sua aventura, a eterna juventude.


Essa é uma lenda muito antiga contada no Japão de geração em geração. Em algumas versões os fatos podem divergir, mas a essência é a mesma. Sua estrutura contém um ato de bondade, uma recompensa magnífica e um desejo de retorno.


Lá pelos anos 1960, a saudosa Varig aproveitou dessa narrativa para anunciar os primeiros voos diretos entre Rio de Janeiro e Tóquio em uma campanha publicitária. A estrela do comercial foi Rosa Miyake, uma cantora de muito sucesso na época, que interpretou uma canção na qual a história foi adaptada.


Na versão variguiana, a recompensa oferecida pela tartaruga era uma viagem para o Brasil. Para conhecer o projeto Tamar? Não, para curtir as maravilhas de Vera Cruz. Urashima aproveitou tudo o que tinha por aqui até que um dia a saudade de sua terra o fez querer voltar. Como presente, ele recebeu uma caixa que, ao contrário da lenda original, deveria ser aberta no mesmo instante. O japonês abriu. E quanta emoção! Encontrou uma passagem da Varig para voar feliz rumo ao Japão. Muito comovente.


Então me pego pensando, será mesmo que uma vida mansa e cheia de regalias pode enjoar um dia? Acredito que sim, dependendo do que está a concorrer com ela. Neste texto foi a saudade, mas poderia ser muitas outras ocasiões. O mais adequado é fazer compreensão do nosso lugar e ter a vista colada na finitude. Nada é eterno a não ser o intangível. Pois da vida boa de Urashima e dos voos da Varig só restam o que pode ser contado e lembrado.

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