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Sobre a crônica e sua capacidade de nos compreender

Atualizado: 24 de nov. de 2023


Crônica, Mário Prata, o que é crônica, cronistas

Esses dias li uma entrevista do Mário Prata à Folha de São Paulo. Entre tantas coisas, o escritor falou a respeito da crônica no Brasil, um gênero literário que, segundo ele, tem perdido a atenção do público. Prata viveu a era de romântica da imprensa brasileira, compartilhando a redação com nomes importantes do jornalismo nacional. O que se fabrica hoje nos grandes jornais parece despertar-lhe a mais pura nostalgia.


Como era de se esperar, o escritor evocou os mestres do passado. Fernando Sabino, Stanislaw Ponte Preta, Rubem Braga, Paulo Mendes Campos e Millôr Fernandes. Simplesmente os maiores cronistas deste país. Citando dois ou três autores que, na sua opinião, realmente escrevem crônicas atualmente, ele afirmou que o gênero tem sido confundido com artigo e anda agonizando.


O entrevistado não explorou o motivo do desinteresse na crônica. Tampouco eu tenho alguma teoria. O que sei é que este gênero, que caminha entre a literatura e o jornalismo, é um encontro com o cotidiano, com os golpes do dia a dia e, consequentemente, conosco mesmo em nossa mais pura essência existencial.


Com bom-humor e vivacidade, a crônica toca o detalhe, o que escorre pelas beiradas do acontecimento, aquilo que pode ser facilmente ignorado como apenas mais dia, uma ida ou volta do trabalho, um subir ou descer das escadas, um bom dia ou boa tarde na praça central, uma tarefa ou relatório pedido pelo chefe, um almoço com a família ou encontro com os amigos.


Não sei se posso me lamentar, mas vejo com pena a preferência por outras leituras, quando a crônica é quem melhor nos compreende. Diante do Mário Prata, com seus 77 anos e repleto de experiência, sou um pardalzinho no ninho, mas acredito que compreendo sua insaciedade em relação a este gênero que tanto apreciamos.


Não se deseja vida por quem agoniza, mas os votos de uma boa morte. Prata nos apresentou o quadro clínico da crônica, estamos perto da hora de deixar o nosso “descanse em paz”?


Faça-se saber, quando a crônica expirar, morrerá também um pouco de nós.

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